02/11/2017

Sabores estrangeiros e brasileiros | Luiz Américo Camargo

Destemperados

Foto: Juliana Palma

Em São Paulo, terminou um evento que, ano a ano, vai conquistando mais público. É a Settimana Della Cucina Regionale Italiana. A ideia central é a seguinte: entidades diplomáticas e empresas italianas se unem para trazer cozinheiros de todas as vinte regiões da Itália. Cada cuoco é recebido por um restaurante, tudo previamente combinado, e, durante uma semana, eles preparam menus típicos, tentando ser o mais fieis à localidade representada.

A mistura funciona bem. O público toma contato com uma cucina mais próxima do receituário atual italiano; os restaurantes têm a chance de fazer um produtivo intercâmbio; os chefs, por sua vez, também voltam para sua terra levando novas possibilidades gastronômicas. Diante desses efeitos positivos, me pergunto: não seria ótimo se as cidades com muitos descendentes de imigrantes pudessem promover iniciativa semelhante com outros povos?

Por que não semanas temáticas alemãs, portuguesas, polonesas, com profissionais trazendo na bagagem as receitas que servem cotidianamente em seus estabelecimentos? Confesso que aprecio o assunto, gosto de pensar nesse processo de adequar preparações e ingredientes ao longo do tempo e da geografia. Neste caso, em particular, acho que os peruanos foram bastante felizes: tendo recebido uma expressiva imigração nipônica, eles acabaram criando o estilo nikkey, que é a versão do Peru para a cozinha do Japão. É uma escola que não se diz japonesa mas, sim, uma adaptação. O que não é demérito, pelo contrário: o Maido, apontado pelo prêmio 50 Best como o melhor restaurante da América Latina, é um representante dessa linhagem

A culinária do imigrante, como sabemos, procura preservar a saudade e a memória. Busca registrar um momento, um repertório de sabores e afetos. Porém, não necessariamente reflete (inclusive por limitações de matéria-prima, muitas vezes) as tradições e evoluções da comida original. Aproximar, portanto, o presente e o “passado imaginado”, pode resultar em encontros culturalmente ricos. Além de saborosos e emocionantes.

*Crítico gastronômico e autor do livro Pão Nosso
lamerico.camargo@gmail.com